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Vinicius de Moraes abriu portas para a troca entre as artes

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Se as fronteiras entre música e literatura estão mais fluidas hoje na vida cultural do Brasil, o crédito deve ser dado a Vinicius de Moraes (1913-1980). Quando começou a compor com Tom Jobim (1927-1994), na década de 60, o então diplomata já era praticamente um veterano dos sonetos e das baladas. Somente nos anos 30, ele publicou quatro livros, sendo o primeiro “O Caminho para a Distância”, de 1933. 

Foi a peça “Orfeu da Conceição”, escrita em 1954, que aproximou Vinicius da canção popular. “Ele uniu a escola de samba com o mito grego, e daí surgiu uma série de composições ao estilo da bossa nova”, afiança o músico, ensaísta e professor de literatura José Miguel Wisnik, que aproveita o ensejo para problematizar as motivações do poeta. 

“Não acho que ele buscava apenas popularidade, porque a experiência da poesia cantada é diferente daquela escrita em livro: vejo esse ponto como o mais revelador dessa decisão”, afirma Wisnik. “O Vinicius abriu um caminho e, se você observar, em certo momento ele até para de publicar livros, que passam a ser mais coletâneas. No final da vida dele, a música fica mais importante”, corrobora Paulo Werneck, editor da revista literária “Quatro Cinco Um”. 

Herança. A atitude de Vinicius naturalizou o caminho para os que vieram depois. Um ano depois de seu compacto inaugural – que trazia “Pedro Pedreiro” de um lado e “Sonho de um Carnaval” do outro –, o iniciante Chico Buarque teve seu conto “Ulisses” publicado no “Suplemento Literário” do jornal “O Estado de S. Paulo”. Mais tarde, em 1974, Chico escreveu uma “novela pecuária”, intitulada “Fazenda Modelo”, que fazia uma alegoria do Brasil naquele período da ditadura militar. Além disso, três peças de teatro e uma ópera foram escritas pelo autor de “Roda Viva” e “Ópera do Malandro” nos anos 70 e 80.

“Mesmo como compositor, Chico Buarque sempre se inseriu numa linhagem das letras, tendo sua obra musical pesquisada em cursos de letras das mais diversas universidades brasileiras, em nível de graduação e de pós-graduação”, aponta a professora de Letras da UFMG, Ana Maria Clark, que em 2016 lançou “Chico Buarque: Recortes e Passagens”, com ensaios sobre a obra do compositor.

O êxito de romances como “Estorvo”, “Benjamim”, “Budapeste”, “Leite Derramado” e “O Irmão Alemão”, traduzidos para diversas línguas, reitera a força da obra do carioca. “Chico é um dos maiores autores de ficção do país. Acho injusto que ele seja tratado como um músico que resolveu publicar livros, é apequenar um dos grandes poetas da língua portuguesa”, diz Werneck.

 

Tony Bellotto se prepara para lançar seu nono romance

Quando recebeu o convite da Companhia das Letras para lançar seu primeiro livro, Tony Bellotto, 58, colocou em prática um sonho antigo. “Música e literatura surgiram juntas para mim, ainda na minha pré-adolescência, mas a música me pegou primeiro”, diz Bellotto. 

A via que o cantor escolheu para se expressar na literatura foi o romance policial. Com oito obras publicadas, ele se prepara para lançar o nono. “Lô” traz como referência o clássico “Lolita” (1955), de Vladimir Nabokov e, segundo o autor, tem uma “pegada satírica sobre as relações humanas contemporâneas”. 

Com uma saga que rendeu adaptação para o cinema, Bellotto aponta ídolos das mais variadas artes. “Amo Tolstói, Lou Reed, Boris Vian”, enumera.

 

Do disco para o livro

Arnaldo Antunes

Com 20 livros publicados, o ex-titã sempre levou a carreira literária de maneira paralela à musical, tanto que, em 1983, lançou o primeiro livro de poesias, um ano antes de estrear em disco com os Titãs. No ano de 1993, Arnaldo foi laureado com o Prêmio Jabuti graças ao livro “As Coisas”.

Chico Buarque

Autor de clássicos da MPB, Chico repete o sucesso na literatura. Ele é vencedor de três prêmios Jabuti. Em 1992, levou o de melhor romance com “Estorvo”, enquanto “Budapeste” e “Leite Derramado” lhe valeram o de melhor do ano, em 2004 e 2010. Em 2014, ele lançou “O Irmão Alemão”.

Rita Lee

A autobiografia da eterna mutante, lançada em 2016, foi um estouro de público e crítica. Mas Rita já se arriscava na literatura desde os anos 80, quando escreveu quatro livros infantis que tinham como protagonista o rato cientista  Dr.Alex. “Storynhas”, “Dropz” e “FavoRita” são seus outros livros.

Adriana Calcanhotto

Em 2008, a compositora gaúcha arriscou-se na prosa com “Saga Lusa: Relato de uma Viagem”. O universo infantil foi abordado em “Melchior, o Mais Melhor”, parceria com Vik Muniz. Já em 2018, Adriana organizou a antologia “É Agora como Nunca”, só com textos de poetas contemporâneos.

Fernanda Takai

No mesmo ano em que a vocalista do Pato Fu lançou o seu primeiro disco solo, ela estreou na literatura, com a reunião de contos e crônicas “Nunca Subestime uma Mulherzinha”, de 2007. “A Mulher que Não Queria Acreditar” e o infantil “A Gueixa e o Panda-Vermelho” deram continuidade à carreira.

Tony Bellotto

O guitarrista dos Titãs debutou no mercado literário em 1995, quando lançou seu primeiro romance policial, “Bellini e a Esfinge”. O sucesso do protagonista valeu uma saga com três continuações em livro e a adaptação para o cinema. Em 2018, Bellotto lança o nono romance de sua carreira.

 

Da literatura para a música

Antonio Cícero

Já reconhecidos como escritores, eles adentraram o mundo da canção popular Recém-empossado na Academia Brasileira de Letras, o carioca tem vários hits ligados a seu nome na música brasileira, graças à parceria com a irmã, Marina Lima. Autor das letras de “Fullgás”, “À Francesa” (com Cláudio Zoli) e ”A Chave do Mundo”, ele voltou a supreender neste 2018, com o funk ”Só os Coxinhas”.

Jorge Amado (1912-2001)

É difícil encontrar, na literatura brasileira, obras que sejam mais populares do que “Dona Flor e Seus Dois Maridos” e “Gabriela, Cravo e Canela”, ambas de Jorge Amado, que também contribuiu com a música brasileira. Ele é parceiro de Dorival Caymmi em “É Doce Morrer no Mar” e “Modinha para Tereza Batista”.

Paulo Leminski (1944-1989)

Apenas na década de 80, o curitibano passou a explorar com afinco o campo musical. Popular nas duas searas, o poeta travou parcerias com Caetano Veloso e Moraes Moreira e teve suas músicas gravadas por Ney Matogrosso e Arnaldo Antunes. Itamar Assumpção ainda musicou seus versos postumamente.

Hilda Hilst (1930-2004)

Adoniran Barbosa foi quem tomou a iniciativa de pedir para a poeta Hilda Hilst alguns versos. A intenção do autor de “Trem das Onze” era criar músicas melancólicas. Assim nasceram “Só Tenho a Ti”, “Quando Tu Passas por Mim” e “Quando Te Achei”, gravada pela cantora paulista Elza Laranjeira, em 1960.

Clara Nunes (1886-1968)

As músicas “Modinha” e “Azulão” são duas parcerias do poeta pernambucano com Jayme Ovalle. A primeira foi gravada por Inezita Barroso, e, a segunda, lançada por Nara Leão. Já “Tu que Me Deste Teu Cuidado”, outra letra de Bandeira, ganhou melodia de Capiba e foi registrada pela cantora.

Vinicius de Moraes (1913-1980)

De apelido Poetinha, o carioca é certamente o maior exemplo de sucesso nessa seara. Autor de versos solenes para livros de poesias e peças teatrais, Vinicius entrou de cabeça no universo da canção popular e foi um dos grandes artífices da bossa nova, com letras coloquiais e, ao mesmo tempo, sofisticadas.

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