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Tairone Vale apresenta o monólogo “Versão Demo” no Teatro Espanca!

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Nesse momento em que cada um defende suas certezas de forma definitiva, perdemos as nuances. Enquanto uns gritam ‘coxinhas!’ e outras bradam ‘petralhas!’, alguns fazem teatro. Essa verdadeira arena ideológica, que não ajuda quase ninguém, foi um dos pontos de partida para Tairone Vale escrever o espetáculo “Versão Demo”, que fica em cartaz no Teatro Espanca! entre amanhã (18) e segunda (20).

Na versão do dramaturgo, o diabo aparece como funcionário de uma grande corporação. Fruto de privilégios e favorito do patrão, certo dia ele começa a desconfiar de que o sol brilha em sua direção mais do que para outros seres humanos.

“Ele percebe as injustiças que acontecem na empresa, acaba se rebelando e escreve um livro com seu ponto de vista dos fatos”, informa o autor.

A rebelião demoníaca acontece durante uma palestra ministrada pelo tinhoso. Citações de políticos, pastores e poetas ajudam a costurar essa performance-solo, também chamada por Vale de peça-conferência.

O início

O exercício intelectual na defesa por contrapontos foi o gatilho que incentivou o ator de Juiz de Fora a escrever um romance sobre o tema. Foi no diabo que o ator encontrou a melhor representação da controvérsia. “Todos os males são atribuídos a ele, mas o que ele tem a dizer?”, filosofa.

O que era para ser livro acabou indo para os palcos, graças à influência do premiado diretor Rodrigo Portella e da diretora assistente Mariah Valeiras. “O Rodrigo começou a perceber toda a conexão do texto com o momento político atual”, justifica Vale. 
Segundo antecipa o ator, o espetáculo provoca a reflexão sobre as várias camadas existentes diante do contexto conflagrado em que vivemos, mas também engrossa a crítica. “A peça fala de opressão e debate sobre a quantidade de absurdos que estamos vivendo hoje em dia”, informa.

Figura explorada em inúmeras obras ao longo da história, o diabo acaba usando seu tridente para cutucar outro dilema contemporâneo. “Parece que estamos em uma certa apatia, é uma condição do brasileiro atual. Ainda não sabemos ter foco e somos facilmente enganados”, provoca o ator.

Mas que diabo é esse que desconstrói a representatividade do mal? Para o ator, que pesquisou como o senhor das trevas é citado na Bíblia e em outras mitologias, pensar o personagem somente a partir desse ponto de vista seria algo maniqueísta. “A faceta que mais me interessa no diabo é ele ser questionador, sua ousadia em levantar o ponto de interrogação”, diz.

Dar voz ao inimigo também foi a forma encontrada pelo dramaturgo de falar sobre empatia, artigo que ainda em falta. “Até no supermercado as pessoas se olham e pensam: ‘será que ele é um vagabundo que mama nas tetas do governo?’”, desabafa o artista.

Como o cramunhão de palestra é um homem branco, a peça segue seu questionamento sobre hegemonias que insistem em existir. “Nossa sociedade, baseada no patriarcado, construiu essa masculinidade tóxica, em que uns estão em condição de poder, enquanto os comandados só aceitam, e preferem não tomar suas responsabilidades”, questiona Vale.

Ansiedade 

Apesar da trajetória de Vale, que já fez peças no Rio de Janeiro, é a primeira vez que o juiz-forano se apresenta na capital mineira. “Estou instigado e ansioso, pois o movimento teatral de Belo Horizonte é respeitado e muito forte”, assume. O espetáculo configura também sua estreia em um espetáculo solo. “Sempre me perguntei se eu teria coragem de fazer um solo, mas o Rodrigo me deixou tranquilo”, garante.

Serviço. Espetáculo “Versão Demo”, com Tairone Vale. De amanhã a segunda, às 20h, no Teatro Espanca! (rua Aarão Reis, 542, centro). Ingressos entre R$ 15 e R$ 30.