Pitty apresenta no MECAInhotim as canções de ‘Matriz’, seu novo disco

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Um ano depois de estrear em disco cantando com Carmen Miranda (1909-1955), um ainda jovem Dorival Caymmi (1914-2008) gravou, em 1940, no formato 78 rotações, “Noite de Temporal”. Recuperada recentemente em um inusitado espetáculo de BNegão, a música foi usada como sampler em “Bicho Solto”, faixa que abre “Matriz”, o primeiro disco de inéditas da cantora Pitty, 41, nos últimos cinco anos, quebrando esse hiato e acabando, enfim, com a ansiedade dos fãs. 

Garantida no repertório do show que a baiana apresenta nesta sexta (17) na abertura do MECAInhotim, a canção levou os admiradores de Pitty a se aproximarem da obra de Caymmi. Na postagem do vídeo com a versão do autor de “Noite de Temporal” no YouTube surgiram comentários do tipo “Pitty, especificamente por ‘Bicho Solto’, me trouxe até aqui” e “Venho pelo mesmo motivo: Pitty”. Sugerida pelo produtor Rafa Ramos, a ideia de aludir à obra do compositor de “Samba da Minha Terra” foi imediatamente comprada pela artista.

“Sentimos que essa era a abertura da história que eu queria contar”, justifica Pitty. A trama vai ao encontro da Bahia, de onde veio o patriarca da família Caymmi, conterrâneo de Pitty, que, assim como ele, nasceu na capital Salvador. Antes de conceber o disco, Pitty caiu na estrada com uma turnê batizada justamente de “Matriz”. Ali estava o embrião do álbum que ela iria desenvolver. 

“O show se propunha a investigar a origem das composições, a experimentar coisas novas, como sons eletrônicos e beats ao vivo. Paralelo a isso, fui fazendo o disco e, na hora de batizar, percebi que ele também estava encaixado nesse contexto de matriz sonora”, conta. “A Bahia foi se mostrando muito forte a cada música, e aí embarquei de vez nessa viagem”, completa. Não por acaso, todas as participações que acompanham Pitty durante a travessia sonora vêm da Bahia. 

Lazzo Matumbi solta a voz em “Noite Inteira”, que repete um dos hinos das últimas eleições presidenciais: “Respeite a existência ou espere resistência”. “Há o avanço do conservadorismo nos espaços de poder, mas a nova geração vem com outro chip. Muito mais fluidos, permeáveis, livres de amarras e rótulos impostos pelo senso comum. Muito mais preocupados em serem felizes e deixar que os outros sejam também, respeitando as escolhas alheias”, aponta Pitty. 

Intérprete de Elza Soares no musical em homenagem à cantora, Larissa Luz declama texto que retoma essa contundência política ao final de “Sol Quadrado”. “Larissa é dessa geração mais nova que a minha. Queria uma voz feminina da Bahia de hoje, e ela representa isso”, enaltece a anfitriã. Já o incensado grupo BaianaSystem dá o ar da graça na eletrônica “Roda”, que diz: “Eu preciso falar dessa nossa verdade que vem do Nordeste”.

Espécie de “Malandragem” (gravada por Cássia Eller) de Pitty, “Bahia Blues” revisita a infância da compositora. “Eu vim de lá/ E agora eu posso voltar”, canta Pitty. “A minha vivência enquanto baiana é bem diferente do estereótipo que as pessoas têm em mente. É uma cidade que não se vê no cartão-postal”, afirma.

Selvagem. Fortemente centrada na questão das raízes, a nova empreitada de Pitty também é atravessada por outras temáticas. A cantora, que explodiu em 2003 pedindo ao outro que tirasse “a máscara que cobre o seu rosto”, agora admite em “Bicho Solto”: “Eu me domestiquei/ Pra fazer parte do jogo/ Mas não se engane, maluco/ Continuo bicho solto”. “Essa domesticação acontece a cada um e cada uma de nós à sua maneira, o viver em sociedade é isso. Nesse caso, falo sobre tentar se encaixar sem perder a essência, em pertencer sem ser pertencido. É um dilema de artista também”, explica.

Nesse caminho, Pitty viu, inclusive, o seu corpo mudar. Em 2016, ela se tornou mãe de Madalena. “A maternidade me trouxe consciência de muitas coisas acerca da vida e do feminino, mas principalmente sobre aprender a lidar com o tempo e o espaço, meu e dos outros. É preciso que haja cada vez mais debates sobre os direitos das mulheres, para a gente seguir em direção ao justo e à equidade de gênero”, finaliza. 

Programação do MECAInhotim. Amanhã (17), Pitty; sábado (18), Gilberto Gil, Duda Beat e Céu; domingo (19), Tulipa Ruiz e o grupo Lamparina & a Primavera; entre outros, sempre a partir das 18h no Instituto Inhotim (rua B, 20), em Brumadinho. Passaporte para os 3 dias a R$ 720 (inteira); sexta-feira e domingo a R$ 180 (inteira); ingressos só para o sábado estão esgotados. 

Ouça as músicas do álbum “Matriz”:

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