Mais braços para difundir a cena mineira

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A cena musical mineira  ganhou mais um suporte para alavancar as gerações da nova MPB e do novo rock mineiro para o espectro nacional de exportação de shows e comércio de discos. Trata-se do selo Under Discos, um fruto do projeto UN Music, do empresário e produtor Barral Lima. De acordo com o diretor musical, há algum tempo, surgiu a vontade de ter um projeto mais direcionado para um tipo de música que o grupo vinha trabalhando recentemente, uma nova MPB e o rock local. “Queremos recomeçar essa história dentro de um conceito mais definido, estava muito abrangente, vamos zerar e começar de outra forma”, anuncia Barral. O selo apresentou duas estreias nos últimos dois meses:  Leo Moraes (Valsa Binária e Gardenais) inaugurou a carreira solo com o disco “Dia Verde Escuro” e Felipe de Oliveira interpreta novos compositores em “Coração Disparado”.

Segundo o empresário, a criação do selo vem para definir e delinear os conceitos de uma nova investida no mercado fonográfico e ao mesmo tempo proporcionar uma estrutura mais sólida para as produções de novos compositores e novos artistas para projetá-los no amplo cenário nacional, garantindo a assistência em viagens, shows e gravações em estúdio. Para ele a presença dos mineiros no mercado nacional está em falta, diferentemente do que tem acontecido com outras cenas regionais que tiveram recente absorção da indústria, como a paraense, a baiana, a do sul e a sempre aquecida cena de Recife.

Nos últimos dez anos, Un Music lançou mais de 30 títulos, entre discos, DVDs, songbooks, livros e espetáculos, além de ter trabalhado em estúdio ou na edição de obras de nomes de peso, como Milton Nascimento, o saudoso Marku Ribas, Andy Summers, Rodrigo Santos, Chico Amaral, Toninho Horta, Lô Borges, Charles Gavin, John Ulhoa, Fernanda Takai, Samuel Rosa e Beto Guedes, para citar alguns.

Em entrevista ao Magazine, ele conta que há cerca de dois anos nas conversas com o jornalista gaúcho, produtor musical e amigo Carlos Eduardo Miranda, falecido em março deste ano, enquanto produziam alguns trabalhos juntos, havia sempre um papo de que BH e Minas tinha muita coisa nova boa, “mas que não sai muito daqui”.  Barral recorda que analisando as listas dos últimos dos melhores discos, quase nunca ou raramente aparece uma ou mais produções mineiras, “Aí eu pensei, ‘cara, essa música não tá chegando onde tem que chegar: nas pessoas’”, afirma o produtor. Frequentador de casas como A Obra, A Autêntica e o espaço Idea Casa de Cultura, ele permanece atento à produção independente e autoral da cidade, seja o rock, a MPB ou o hip hop. Ele destaca a boa safra com nomes como o do rapper Djonga e a banda Moons.

Para ele, era preciso mobilizar a cena. Primeiro foi preciso unir os interessados, os espaços e demais agentes do mercado cultural mineiro. O primeiro a ser acionado foi o músico, produtor e diretor cultural do Idea Casa de Cultura, Luan Nobat que aderiu de prontidão à ideia do selo. À época o artista preparava o disco “Estação Cidade Baixa” e logo já foi se encaixando para delinear a nova cara do Under Discos. Ainda para apresentar esse novo direcionamento, o selo abre seus trabalhos já com três lançamentos, são eles “Estação Cidade Baixa”, de Nobat, “Coração Disparado”, onde Felipe de Oliveira interpreta a nova cena de compositores mineiros – como Dé Mussolini, Dé de Freitas e Guilhermes Borges-, e “Dia Verde Escuro”, de Leo Moraes.

Leo, idealizador e diretor da Autêntica também acenou positivamente. Apreciador de discos e do material físico, ele topou a empreitada e parte agora para os caminhos da carreira solo, com segundo disco e outros projetos em vista. “Esse selo surgiu de uma maneira que me agrada muito, a partir da coletividade e o trabalho conjunto. Lançamos esse já pensando em outros. Me deu um gás para fazer as coisas, já estamos preparando uma turnê”, exalta o músico.

A casa de show comandada pelo músico também está realizando a “Feira do Vinil e CDs Independentes”, projeto da Discoteca pública que ultrapassa  dez anos de

Em “Dia Verde Escuro”, Leo apresenta uma faceta mais madura em canções que abordam questões do cotidiano de um artista, de um pai e os hábitos da vida doméstica do agitador cultural. O título do álbum, inclusive é uma expressão de seu filho mais novo para definir as cores dos sábados e domingos no calendário escolar.  As tranças de um macarrão ao molho pesto ocupa toda a arte da capa. O álbum conta com 10 faixas que “são canções simples e que seguem arranjos harmônicos”. Acompanhado de baixo e bateria na maioria das músicas, Leo harmoniza as canções a partir do piano, instrumento que utilizou pela primeira vez em registros.

Segundo Leo, muitos artistas que passaram pela Autêntica influenciaram as composições deste trabalho, como Tim Bernardes e seu trabalho com O Terno, a banda Maglore e o músico Fernando Persiano.

 

Mais novidades

O calendário da Under Discos para o segundo semestre também já está garantido com festival e um programa para TV e web série que pretende projetar os músicos do selo para o circuito de mídia nacional. O Palco Ultra Music ganhará versão própria, com produção feita pela Under Discos. O Festival Palco Ultra deve acontecer na praça da assembleia, e já tem Belo Horizontinos confirmados para o line-up, alguns deles são eles o rapper Djonga, Luan Nobat, Marcelo Veronez, Sara Não Tem Nome e a banda Moons. Além disso, Francisco el Hombre e Maglore também integram a programação do festival.

O programa de TV, na verdade, “não é nenhuma novidade”, segundo Barral. O Under Sessions vai ser um programa de gravação e entrevistas, como os outros, “mas ainda não tínhamos um produto assim que mostrasse a cena daqui”, afirma Barral. Por isso, o programa quer fazer um intercâmbio, mostrando artistas do selo e artistas convidados para fazer uma gravação ou mostra um trabalho para o público daqui. Em fase de produção pelo  braço audiovisual da Under Discos, a produtora Neutra, já confirma nomes como Kassin, Nobat, Roberta Campos e os baianos da Maglore.

Miranda, o “criador das cenas”

O tato para criar cenas musicais, principalmente no anos 1990, quando houve o último estouro de bandas de rock e pop-rock que aqueceram o mercado fonográfico brasileiro foi uma dos títulos do currículo do produtor gaúcho. Miranda ajudou a alavancar bandas como Skank, Nação Zumbi, Mundo Livre S/A, O Rappa, Raimundos além de muitas outras expoentes do underground paulista através do selo Banguela Records. Em Porto Alegre, foi muito atuante na cena musical da cidade nos anos 1980 e um dos criadores do “rock gaúcho”.

Miranda e Barral identificaram em jovens músicos e compositores do Estado, uma forte cena produtiva, com características próprias, voltadas para a confecção da canção simples e o apego à tradição das harmonia. “Ele falou: ‘alguém tem que fazer um selo para essa galera’”,  revela Barral, acrescentando que quer dar continuidade aos princípios que o amigo empregava em seus trabalhos: dar voz para as novas gerações.

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