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20 anos em perspectiva

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Acredite! Lá se vão 20 anos desde que, pela primeira vez, o espírito de Lolô encarnou no machão Vicente e causou uma confusão nos palcos de Belo Horizonte e, assim, começou uma avassaladora trajetória de sucesso. Seja na Campanha de Popularização do Teatro e da Dança ou em longas temporadas em São Paulo e no Rio de Janeiro, “Acredite, um Espírito Baixou em Mim” já acumula 3 milhões de espectadores. E hoje, às 21h, haverá uma apresentação comemorativa da peça no Sesc Palladium, dentro do Festival BH de Artes Cênicas. 

“Alguns espetáculos dão a sorte de cair nas graças do público. Nem sempre é uma combinação de qualidade dos artistas envolvidos e das escolhas que eles fazem, mas parece que existe essa sorte”, avalia o jornalista e crítico de teatro Miguel Anunciação. Ele esteve presente na estreia do espetáculo, no teatro Icbeu. “É uma comédia muito eficiente, de apelo popular. É um espetáculo que conduz ao riso. E há uma preferência do público em muitos lugares do mundo. São temas mais imediatos e mais fáceis de se digerir”, pontua Anunciação. 

A peça conta a história de Lolô, um homossexual inconformado com a própria morte que volta à Terra encarnado em um sujeito hétero prestes a se casar. “Me considero um ator de presença forte, porém, parece que, literalmente, baixa um santo e me transformo numa pessoa frágil. Meu personagem é de uma inocência que consegue criar uma empatia com a plateia. A Sandra (Pêra, diretora da peça) sempre me dizia que o Lolô pode tudo, porque ele tem um espírito muito puro, de uma criança”, destaca Ilvio Amaral, que vive Lolô em cena.

“Acho que a peça consegue tratar um tabu de uma maneira muito leve. Ainda é fundamental falar sobre homossexuais no palco. Até hoje alguns rapazotes me procuram para falar que a peça os ajudou a assumir a homossexualidade em casa. E de maneira divertida, eles voltam depois com os pais e podem rir juntos da peça”, pondera Amaral.

Para o ator e ativista LGBT Igor Leal, a questão de a temática LGBT ser retratada em cena não faz com que o espetáculo promova um debate atual e real sobre os assuntos ligados às sexualidades e suas diversas representações. “Não quero levantar essa ideia de representação ideal, porque ela não existe. Entretanto, é necessário dizer que o espetáculo usa códigos do senso comum, elementos de gênero já legitimados socialmente, e isso facilita a fruição de um público. Mas é preciso pensar quem é o público do espetáculo. Na maioria, é a tradicional família mineira. É uma espécie de entretenimento heterossexual de luxo”, provoca Leal. 

Para Anunciação, os modos de encarar a homossexualidade não são exclusivos: “Devemos pensar que existem outras formas. Tampouco acho que o espetáculo diga respeito ao preconceito. Ele trata com afeto, tanto é que a plateia sai encantada pelos personagens homossexuais. Talvez possa merecer ressalvas, mas, ainda assim, aproxima a sociedade dos homossexuais com um olhar terno e afetuoso”.

“Não vejo no trabalho a intencionalidade de gerar um debate verdadeiro, autoconhecimento ou promoção da autoestima LGBT”, pontua Leal. Para ele, em um contexto social que se modificou com algumas conquistas da comunidade LGBT, o espetáculo se afastou da realidade. “Nos últimos anos, o Brasil tem feito um esforço em torno da pauta, e é importante perguntar que esforços esses atores geraram em cena para manter esse espetáculo vivo e atual”, indaga Leal. Ele próprio responde: “A peça não é atual, porque seu espaço é privado, e as experiências LBGT estão no espaço público de outra forma”, finaliza.

 

Cangaral à espera de um novo sucesso teatral

Apesar dos muitos anos de sucesso da peça, o ator Ilvio Amaral sabe que não continuará fazendo seu personagem Lolô por muito mais tempo. “Uma hora tenho que parar, porque já estou maduro para fazer a peça. Tenho 58 anos de idade. Eu pulo durante uma hora e 20 minutos direto, vou chegando no meu limite físico. Como tenho uma única profissão, preciso emplacar outro sucesso”, pondera Amaral. 

Entre os planos da dupla Cangaral está um novo espetáculo chamado “O Dia que Terra Parou”, que foi enviado para os editais em busca de financiamento público. “Quero fazer outras coisas, abordar outros assuntos”, aponta. “Quando as pessoas vão escrever texto para a gente, elas sempre veem o espírito primeiro e me colocam desgraçadamente sofrendo mais”, se diverte o ator. 

O sucesso de público de “Acredite, um Espírito Baixou em Mim” ocasionou outras experiências no teatro. “A gente deve ter sofrido muito com o teatro em outras encarnações. Então, alguém deve ter resolvido dar o ‘Espírito’ de presente. O espetáculo é o grande patrocinador que temos de tudo. De todas as experiências que quisemos fazer, dos espetáculos dramáticos, das comédias fracassadas que fizemos, das viagens. Nunca tivemos o luxo de fazer as viagens de avião, porque eu nunca tive patrocínio”, finaliza.

Comemorativa

Única apresentação de “Acredite, um Espírito Baixou em Mim”, às 21h, no Grande Teatro do Sesc Palladium (av. Augusto de Lima, 420, centro). Ingressos a R$ 20

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